Entrevista com o Éme | Watch and Listen!

Entrevista com o Éme


No passado Domingo, dia 22 de Fevereiro, estivemos à conversa com João Marcelo, o Éme, antes do seu concerto na Matiné que teve lugar no Zé dos Bois. Falámos sobre inspirações musicais, sobre os concertos que o jovem português deu em Espanha, sobre o Bob Dylan e o seu recente álbum "O Último Siso". Fica a entrevista abaixo e as fotografias.

Watch and Listen: Como surgiu o projecto e porquê o nome Éme?

Éme: Não é projecto sou eu mesmo. Comecei a fazer música... como as pessoas começam a fazer coisas. É só não ter medo de existir, foi assim que começou. Comecei com os Passos em Volta e depois comecei a fazer música sozinho. Fui gravando álbuns, e pronto gravei este último e fui sendo elogiado por várias pessoas, e vários amigos têm-me ajudado. Mas eu nunca chamaria a isto um projecto. O nome Éme é porque uns amigos meus tratavam-me por Éme, por o meu último nome ser Marcelo. E, quando comecei a fazer canções sozinho o nome João Marcelo já estava ocupado, por um cantor pimba brasileiro... muito conhecido! Pronto não queria ser o João Marcelo, então sou o Éme. Na verdade, eu também não sou o verdadeiro Éme que existe um francês, mas não se escreve como o meu!

W&L: Fala-nos um bocado das tuas inspirações a nível musical.

Éme: Tenho muitas mas assim directamente... Oiço o que toda a gente ouve, o Bob Dylan, o Leonard Cohen. E inspiro-me claro, mas talvez assim mais para tirar uma ideia ou um modo operante mais do que tirar ideias musicais. Se for para dizer com o que eu acho que a minha música mais se assemelha eu não consigo dizer. Mas a forma como eu tiro acaba por ser essa. E a influência que acaba por ser a mais pesada de todas, é a influência da vida. As pessoas com quem me dou, toco... Existe muita transmissão directa. E a literatura, como estudei literatura isso também me influencia muito. E foi assim também que comecei a fazer canções, a escrevê-las.


W&L: Como foi trabalhar com o B Fachada e o Walter Benjamin?

Éme: Foi muito fixe. O B é um músico que eu já gostava antes de sequer o conhecer. Ficámos muito amigos. E o Walter é óptimo a fazer o que faz, a gravar. Foi muito bom. Estivemos em Alvito, no meio de Alentejo a gravar durante 5 dias. Foi óptimo trabalhar com eles, fiquei muito contente.

W&L: Qual é a maior diferença do teu primeiro álbum "Gância", para o segundo "O Último Siso"?

Éme: Eu acho que o novo é melhor. Mas sim, quando fazes isto, quero dizer isto é verdade em qualquer trabalho. À medida que vais fazendo vais encontrar soluções que tornam o teu trabalho mais simples, para ti, e que o tornam mais eficaz. É assim uma progressão natural. Eu ainda não cheguei a um ponto, e sinto que estou longe de chegar a um ponto, em que o meu processo fique estabelecido. Até isso acontecer, vou sempre estar a tentar arranjar soluções novas, mais eficazes e a pôr em questão as anteriores. Daí tudo mudo, e tudo há-de continuar a mudar. Isto é um bocado sobre o processo também, não é. Também não consigo falar da minha música assim de maneira prática. Foi tudo muito diferente, sim. Desde o processo, o sentido, o propósito, a intenção... Tudo mudou.


W&L: Como é que achas que foi a reacção do público a este último álbum?

Éme: Acho que as pessoas gostam das músicas, tenho sentido isso. Não sei, depende das pessoas. Há pessoas que gostam, outras não. Há pessoas que já me vieram dizer que o disco novo está fixe, mas que preferem o anterior e por isso não gostam do novo. Isso para mim é errado... estou a brincar! Mas não, as pessoas reagem bem. Mas não sinto que sou grande o suficiente para tentar tornar uma massa aquilo que não é uma massa. As pessoas têm várias formas de gostar da música. Eu trabalho para isso também, porque nunca quero dar tudo, eu quero é fazer um trabalho de na altura das pessoas ouvirem seja fechado. E partindo deste princípio as pessoas reagiram bem, porque as pessoas ouvem a música de formas muito variadas.

W&L: Encontrámos apenas um videoclip teu. Estás a pensar em fazer mais videoclips?

Éme: Eu tinha o videoclip da "Lisa", que foi o Lourenço que fez. Ele toca teclas comigo. E outro amigo meu fez um videoclip de "Um Lugar". Ele chama-se Afonso Mota. Fez assim uma pequena montagem de filmagens de um concerto meu e com paisagens de Trás-os-Montes. Portanto há dois. Mas o segundo é muito recente e não tá publicado por mim. Mas o segundo é muito bonito, eu gosto muito. E aí posso dizer, porque não fui eu que fiz.


W&L: Como foram os concertos dados em Espanha? 

Éme: Foi giro, foi engraçado. Os espanhóis falam muito alto. Mas eles gostam de ouvir música assim. Dar assim muitos concertos ajuda-te a concentrares-te logo, imediatamente vá. E em Espanha como eles têm uma forma tão diferente de ouvir música, que eu notei. Obviamente que não foi tudo igual. Espanha é o que todos sabemos, tem vários "países" por assim dizendo. Tocámos em sítios muito variados. Nesse sentido foi bom porque lidámos com muitas pessoas diferentes, com várias formas de ouvir música. No final isto tem o resultado de tu aprenderes a lidar um bocado com a diversidade e, a não tentares moralizar a forma como as pessoas querem ouvir música num concerto. Cada vez mais, é mais fácil de perceber que os concertos não sou eu que os faço. Toda a gente faz os concertos. 50% somos nós que damos, e os outros 50 são se calhar as pessoas. Temos mais uma vez, de tentar arranjar forma de tornar isto eficaz.

W&L: Sentiram muitas diferenças entre o público português e espanhol?

Éme: Eu sinto diferença com todos os públicos. As pessoas são sempre diferentes, seja onde for. Em Lisboa mesmo todos os concertos são diferentes.


W&L: Podes falar-nos um bocado sobre os Passos em Volta?

Éme: Acho que posso. Foi como eu aprendi a tocar música. É a minha banda com os meus amigos. Agora temos estado publicamente parados. O João Dário e a Maria Reis são os outros guitarristas, para além de mim dos Passos em Volta. Foram eles que me ensinaram a tocar guitarra e foi com eles que aprendi a fazer músicas. Para mim é uma coisa importantíssima.

W&L: Se pudesses escolher um álbum do Bob Dylan para ouvir para sempre, qual seria?

Éme: Eu não tenho uma resposta. Eu gosto de todos os discos do Bob Dylan. Mas de certeza que era entre 62 e 70. Portanto algum desses, entre esses anos provavelmente. Mas espero não ter de fazer nunca essa escolha. Provavelmente se isso acontecesse parava de ouvir Bob Dylan, ouvia outros compositores.

W&L: Foi difícil encontrares o teu lugar na música?

Éme: Eu sou itinerante assim em termos musicais, mas sim foi. É sempre difícil tentares procurar o que ainda não está feito.




No final da entrevista, pedimos ao Éme que desenhasse algumas imagens que lhe mostrámos sem olhar para o papel. Vejam o vídeo:

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