NOS Primavera Sound 2017: a diversidade musical no seu melhor | Watch and Listen!

NOS Primavera Sound 2017: a diversidade musical no seu melhor


O NOS Primavera Sound regressou ao Parque da Cidade, no Porto, nos dias 8, 9 e 10 de junho para a sua sexta edição. Ao longo desses três dias testemunhou-se a evolução que tem vindo a acontecer em alguns festivais nos últimos anos: a junção de mais um género musical no mesmo espaço. As mesmas pessoas que gostam de música eletrónica podem muito bem ir ouvir e ver rock, hip-hop e música brasileira no mesmo dia. E foi o que aconteceu este ano.


No primeiro dia, 8 de junho, houve tempo e espaço para tudo desde as melodias melosas dos Cigarettes After Sex até à eletrónica magistral dos Justice. O cantor-norte americano Miguel transbordou uma sensualidade única na sua voz com melodias R&B que, por vezes, até chegam a percorrer ritmos do Hip-hop e da eletrónica no Palco NOS. "coffe", "Adorn" e "waves" foram alguns dos temas que conquistaram o público presente. Miguel ia dizendo algumas palavras em espanhol e não português, mas não foi por isso que alguém deixou de gostar do concerto. O artista tinha um palco grande para atuar e encantar as pessoas, sendo que, conseguiu isso mesmo. Até quem nunca tinha ouvido uma música dele gostou do espetáculo e da sua atitude em palco.  A história dos Run The Jewels com o festival começou em 2015 quando atuaram no palco anteriormente apelidado ATP, que é o palco ponto agora. Nesse ano, o concerto estava cheio de pessoas ansiosas para os verem, o único nome de hip-hop desse cartaz, tanto que até houve muitos crowdsurfings. Dois anos depois, regressam num palco maior, o palco NOS, o que se justificou devido ao último álbum do duo, "Run The Jewels 3", e ao crescimento deste género musical tanto neste festival como nos outros. Entraram em palco ao som de "We Are The Champions" dos Queen e foram realmente os campeões deste dia com um dos melhores concertos. El-P e Killer Mike sabem o que fazem e que as suas músicas com letras políticas funcionam bem nos dias de hoje, infelizmente. Além de falarem pelas letras, também usam discursos. Killer Mike disse às pessoas para ajudarem as outras nos crowdsurfings, falou sobre violações e ainda prestou uma homenagem a um amigo que tinha morrido no dia antes. E El-P fez uma piada sobre sair dos RTJ, algo que parece improvável por agora e muito menos depois de terem adorado dar este concerto e a cidade. Algumas músicas como "Panther Like a Panther", "Call Ticketron" e "Hey Kids (Bumaye)" levaram à efusão do público. A música fala sempre mais alto, e o duo provou que é necessário haver vários géneros musicais nos festivais, até hip-hop. Run The Jewels are the shit. A seguir, Flying Lotus trouxe a sua mistura de jazz, hip-hop e eletrónica para o Palco Super Bock, transformando a relva numa pista de dança. Os Justice terminaram este dia forte em grande. O duo francês formado por Gaspard Augé e Xavier de Rosnay apresentaram o seu último disco, "Woman" de 2016, mas não faltaram os hits "D.A.N.C.E." e "Genesis". Tudo neste concerto estava em sintonia: as músicas, as luzes e as pessoas. Foi uma ótima festa para terminar o dia. 


O segundo dia do festival, 9 de junho, contou com algumas supresas umas boas e vária diversidade musical. A Angel Olsen tocou à hora ideal com o sol a bater-lhe na cara, no Palco NOS. Ao vivo as músicas do último disco "My Woman" funcionam bem à exceção de "Shut Up and Kiss Me" que infelizmente não é tão efusiva como em estudio. Tocou sete temas mas foi o suficiente para se voltar a apaixonar pelo país. Os Sleaford Mods conseguem sempre animar o público presente com a sua genialidade. O duo de Jason Williamson e Andrew Fearn pode parece que faz tudo muito simplista e faz, visto que, ao vivo Williamson despeja as suas palavras revolucionárias enquanto que Fearn fica ao seu lado e vai mudando de música no computador. Aqui as letras falam mais alto que tudo e é assim que torna os Sleaford Mods tão geniais. Às 22h15min começou o concerto mais esperado deste dia, e uma das razões por os bilhetes terem esgotado, o dos Bon Iver. As músicas de "22, A Million" nem ao vivo resultam bem. Quer dizer, é bom que tenham experimentado uma sonoridade diferente, mas infelizmente não correu bem. O que realmente salvou este concerto foram as músicas mais antigas e a felicidade que Justin Vernon emanava do palco. Não faltou a "Skinny Love" que ficou para o encore numa versão mesmo sentida. Apesar do disco mais recente não ser muito bom ao vivo, a verdade é que o grupo sabe como dar concertos bons. Depois, o Skepta, outro dos nomes do mundo do hip-hop no cartaz deste ano, proporcionou um dos melhores momentos do dia no Palco Super Bock. Um dos artistas mais proeminentes do grime no Reino Unido deu um concerto histórico no festival. Desde o princípio ao fim que a energia entre Skepta e o público foi mútua, e a "energy crew" esteve sempre em sintonia com ele. As suas letras com um poder ativista juntamente com o seu sotaque britânico são o que o tornam num dos grandes nomes deste género musical. Como tal, as pessoas que o foram ver sabiam bem disso daí conhecerem todas as músicas. Ao vivo, faz-se acompanhar pelo DJ Maximum que fica a tomar conta dos beats. "That's Not Me", "Lyrics", "It Ain't Safe" e "Shutdown" foram alguns dos temas que marcaram bons momentos ao longo do espetáculo. No final, desceu ao palco para cumprimentar os fãs como um bom rei faz e para tornar o concerto ainda mais inesquecível. A passagem dos King Gizzard & The Lizard Wizard pelo nosso país a cada ano já começa a ser habitual e claro que iriam voltar este ano também. A banda australiana sabe sempre dar concertos bons e incentivar os moshes e os crowdsurfings. Ao mesmo tempo que o grupo, havia Nicolas Jaar um género completamente diferente que encerrou o palco NOS neste dia com as suas músicas eletrizantes, incluindo algumas do último álbum "Sirens".


O terceiro e último, 10 de junho, foi uma ótima despedida do NOS Primavera Sound deste ano. Para começar, a Elza Soares foi a rainha deste dia e do festival inteiro. Não só por cantar no seu trono, mas pela sua voz e a força que transmite. O Palco Super Bock se calhar até foi pequeno demais para a sua grandeza musical. Soares é a prova que mais vale tarde que nunca é por isso que numa idade mais velha está a viver o seu sonho e ainda bem que é possível testemunhar-se tal feito. As letras das suas canções transpiram poder interior por todo o lado, e a sua voz única grave exterioriza-o. Isto torna um concerto seu ao vivo uma experiência sensacional que se precisa de viver, pelo menos, uma vez na vida. Contudo, não é apenas com os seus temas que comunica os seus pensamentos, pois, também o faz com discursos. Na música "Maria da Vila Matilde", a cantora fala sobre violência doméstica e no concerto apelou a quem sofre disto para fazer queixa. Antes de cantar "Firmeza" falou sobre uma mulher transexual e dedicou-lhe esse tema. Este conjunto todo de força e talento provam que Elza Soares merece o prémio de Cantora do Milénio porque é mesmo. Ainda deu para ver um pouco dos Wand com o seu rock puro. Os The Growlers deram um concerto bastante curto, apenas tocaram sete temas, porém a sua combinação de country, rock psicadélico e surf pop com ares da Califórnia das suas músicas ficaram em perfeita sintonia à hora que foi e no palco em que foi, no NOS. Houve tempo para tocarem músicas mais antigas como "Chinese Fountain"e "One Million Lovers", tal como, para as do último disco, "City Club". Uma cover de "Good Name" do William Onyeabor não faltou. Apenas faltou tocarem mais um bocado. O Sampha veio a Portugal para apresentar o seu disco de estreia, "Process", finalmente. O concerto no Palco Super Bock valeu a espera, e o artista percorreu as suas músicas mais calmas para as mais animadas. "(No One Knows Me) Like The Piano" foi a última do espetáculo tendo sido o momento mais bonito ali e do festival inteiro. Os Metronomy deram um dos melhores concertos da noite. A banda melhora cada vez mais ao vivo e os seus concertos são sempre a maior festa num festival qualquer. Quer se goste da banda e nunca se tenha ouvido nenhuma música, quer já se tenha ouvido algum tema e não se tenha gostado a verdade é que ao vivo é impossível não se gostar de ver um concerto. Joseph Mount, Oscar Cash, Anna Prior, Olugbenga Adelekan e Michael Lovett trazem sempre uma energia cativante para os seus espetáculos. A maior parte das suas canções de indie-pop já são animadas, e de alguma forma ao vivo conseguem transmitir a animação toda. Claro que aqui o fizeram, mais uma vez, no nosso país. O mais recente trabalho da banda, "Summer 08", esteve em força mas ainda tocaram alguns dos seus temas mais icónicos, tais como, "I'm Aquarius", "The Bay", "Love Letters" e "Corinne". E ainda tocaram "Everything Goes My Way" onde Anna Prior saiu da bateria para o microfone e Joseph Mount na bateria. O concerto terminou com "Reservoir", um destino a que os Metronomy gostariam de levar os seus fãs portugueses. O Aphex Twin encerrou o Palco NOS neste dia final e deu um set prolongado que deliciou os fãs que o esperavam ver há muitos anos e não desiludiu. Twin reinventou a música eletrónica contemporânea nos últimos anos sendo um artista excecional do género. Durante o concerto comprovou este estatuto, desde às músicas que passou até ao espetáculo visual. O facto de ter começado por meter músicas mais calmas e depois ter evoluído para as mais animadas serviu para mostrar a sua genialidade. A espera longa valeu mesmo a pena.


O NOS Primavera Sound deste ano foi a prova que hoje em dia um festival é mais do que um género musical: é vários e deve continuar assim. Houve bandas e artistas para todos os gostos do público que atendeu, e isso é de se louvar. Assim, a sexta edição do festival teve muitos momentos históricos que ficarão na memória das pessoas por muitos anos.

NOS Primavera Sound 2017

Texto e fotos: Iris Cabaça

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