"This Is America" de Childish Gambino: a arte é sempre política | Watch and Listen!

"This Is America" de Childish Gambino: a arte é sempre política


Donald Glover passou pelo Saturday Night Live no passado dia 5 de maio  porque foi o convidado para apresentar, fazer alguns sketches e atuar também. No mesmo dia, lançou o vídeo para o seu novo tema “This Is America”. Um vídeo e música que rapidamente se tornaram populares por diversas razões.


A grandeza de Glover é imparável. Pois, ele é ator, músico, realizador, comediante e muito mais. Nos últimos anos, abstraiu-se das redes sociais e fez muito poucas entrevistas. Porém, parece que se dá a conhecer cada vez mais às pessoas através da sua arte. A série que criou, protagoniza e realiza, “Atlanta”, aborda assuntos que acontecem diariamente nessa cidade incluindo problemas raciais, culturais e económicos. O último álbum que lançou em 2016, o mais sério até à data, mostrou outra faceta dele. Um lado mais pessoal, paternal, preocupado, soul e funk ao mesmo tempo. Estes dois trabalhos foram uma evolução para quem no começo da sua carreira musical levava o hip-hop a brincar.

Durante a sua visita no SNL, voltou a fazer comédia, tal e qual como o víamos a fazer em Community, com sketches excelentes. Há que fala de Kanye West numa cena inspirada no filme “A Quiet Place”, outro dos Migos (a banda que deu um pouco de fama nos Globos de Ouro de 2017), um é sobre profissões mal pagas e ainda há muitos mais para rir. Ao mesmo tempo, lançou e atuou duas músicas novas no programa: “This is America” e “Saturday”, cuja sonoridade é diferente dos seus últimos trabalhos musicais. Contudo, o vídeo para a canção “This is America” é só o que se fala online desta semana e com razão porque há muitos temas de conversa acerca deste tópico.


O videoclip da “This is America” tem vários momentos marcantes que podem levar a interpretações diferentes de cada um deles. É isto que o torna tão único e importante. O primeiro facto que se tira é que com os seus movimentos de dança e caras parvas ao fazer isto Childish Gambino está a distrair os espectadores do que realmente está a acontecer no fundo. Na primeira visualização pode-se não perceber logo isto, o que provavelmente foi intencional. Após se ver mais vezes, começa-se a reparar na loucura toda que está a acontecer em segundo plano. Há pessoas a correrem, outras a atirarem dinheiro para o ar com uma máquina para tal, galinhas no chão, carros incendiados e muito mais. Com isto, Gambino faz uma crítica social aos Estados Unidos da América porque as pessoas ligam mais ao entretenimento do que a pessoas negras serem mortas sem razão nenhuma. Inclusive, a letra da música não é super profunda porque diz para se olhar para ele. Até isso serve como uma distração para o que está a acontecer.


Aparentemente, o vídeo está divido em três partes, quase como se fossem atos numa peça de teatro, e em cada uma delas há mudanças dramáticas. A primeira inicia numa parte da música com ritmos africanos. Depois, Gambino mata um homem sentado na cadeira a tocar guitarra e a melodia muda completamente para uma sonoridade mais urbana. O tema regressa ao ritmo anterior com o coro e Gambino a cantarem o refrão. Mais à frente, há uma pausa onde o artista parece imitar uma arma, sem estar com nenhuma na mão, e há um silêncio durante alguns segundos. Ele começa a fumar e põe-se em cima de um carro a dançar anunciando o final. Porém, a canção e a cinematografia mudam para uma cena mais escura que pode ter sido inspirada no filme "Get Out" ou em "Paprika", visto que, Hiro Murai, o diretor do vídeo fez um tweet com um gif desse filme. Estas mudanças de sonoridade e de cena causam um grande impacto para quem assiste e consegue fazer com que as pessoas continuem atentas.


O que se percebe quase imediatamente é que o vídeo está cheio de simbolismos sobre violência de armas com pessoas negras. Tudo aqui é uma metáfora da realidade dos Estados Unidos da América neste momento. No início, vê-se um homem sentado numa cadeira a tocar guitarra. Algo que parece bastante simples mas não é porque este senhor pode representar o pai de Travyon Martin, um rapaz que foi morto por um policia em 2012 e iniciou o movimento Black Lives Matter. Alguns segundos depois, este homem é morto a tiro por Childish Gambino enquanto a sua cara está tapada. Mais à frente no vídeo, aparece um coro de igreja a cantar "He gonna shoot somebody" e o músico surge para assassinar todos. Isto é, provavelmente, uma representação do tiroteio que ocorreu na igreja de Charleston em 2015. Nestas duas cenas, Gambino faz coisas inesperadas que causam um grande impacto e trata as armas com mais delicadeza do que trata as pessoas. O que pode indicar que na América as armas são sempre muito melhor tratadas do que as pessoas assassinadas injustamente, e isto continua a acontecer porque nada muda, por isso, ele quando comete os assassinatos continua a andar como se estivesse tudo bem na mesma. 



Além de abordar a questão das armas e da violência contra pessoas negras na América do Norte, Gambino também apresenta outros temas raciais. A maneira como ele se movimenta é a imitar Jim Crow que é uma representação racista de quando pessoas negras não podiam entrar em peças de teatro ou filmes. Devido a isso, havia atores brancos a pintarem a cara de preto para fazerem personagens exageradas, tendo sido a origem de Blackface. Quando ele dança com os bailarinos, também quer mostrar que as pessoas gostam de assistir a entretenimento criado por pessoas negras, mas quando algo grave lhes acontece não ligam sequer. Resumidamente, isto é o que o artista e o realizador querem mostrar ao público: há problemas graves a acontecerem por detrás do espetáculo todo.

Já quase no final do vídeo, o homem sentado na cadeira com a sua guitarra volta a aparecer e é um símbolo de que as pessoas negras são mortas meramente pela cor da sua pele e as suas caras podem ser esquecidas, mas irão ser lembradas pelo que lhes aconteceu. 


Em suma, o videoclip da música "This Is America" é genial porque fala de assuntos raciais que acontecem todos os dias neste país, e está aberto a várias interpretações. Também é necessário ver-se mais do que uma vez para se perceber tudo melhor. 



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