NOS Primavera Sound: a carga emocional do último dia | Watch and Listen!

NOS Primavera Sound: a carga emocional do último dia


O terceiro e último dia do NOS Primavera Sound, 9 de junho, recebeu a nada aguardada chuva durante horas. Entre as capas de chuva e as poças de lama, houve concertos para todos os gostos e feitios, novamente. Luís Severo, Kelela, Nick Cave And The Bad Seeds, Arca e muitos mais tornaram bela esta despedida. 

A sétima edição do festival portuense contou com uma média de 30 mil pessoas em cada um destes três dias. No warm-up do festival nos Aliados, que contou com Fatboy Slim, também estiveram presentes 30 mil pessoas. Este ano ainda foi possível ter-se novos palcos como o Primavera Bits e o Rádio Primavera Sound.

Luís Severo foi um dos primeiros a dar início a este último dia no Palco Seat. Enquanto caíam pingos de chuva, o artista veio acompanhado pela sua banda composta por Manuel Palha (Capitão Fausto), Diogo Rodrigues e Bernardo Álvares. A realista "Escola" seguida pela antiga "Cara D'Anjo" e pela esperançosa "Amor e Verdade" aqueceu o coração dos presentes apesar do frio que fazia. Sempre sorridente por ver pessoas ali, Luís Severo agradeceu várias vezes por terem estado à chuva. No final, chegou a "Ainda É Cedo", e a realidade é que ainda era demasiado cedo para se ir embora porque podia ter tocado muito mais.


No Palco Super Bock, às 18h50, chegou Kelela pela terceira vez a Portugal (a primeira foi na Galeria Zé dos Bois e a segunda no Super Bock Super Rock). O tema "LMK" deixou desde logo saber que íamos ver um concerto de R&B dos bons. Em "Frontline", o segundo na setlist, a cantora ficou emocionada e começou a chorar ao ver tantas pessoas a apanharem com chuva durante o seu segundo, agradecendo muitas vezes por causa disso. Também as incentivou a irem ver o concerto da sua amiga Kelsey Lu. Apesar do som menos bom, Kelela conseguiu dar a volta com a sua voz sensual. Como ficou com tempo extra, ainda deu para cantar "The High" e acabar com "Rewind" numa versão menos eletrónica ao vivo, mas que soou melhor assim neste alinhamento.


Kelsey Lu no Palco Pitchfork entrou com um cesto de frutas na mão fazendo uma coreografia perfeita até o colocar no chão. Tal como as suas músicas, Kelsey Lu apresenta-se ao vivo como uma pessoa calma e controlada. A sua voz maravilhosa a ecoar nas gotas de água originou um concerto bastante bonito. Ouvia-se o barulho um pouco incomodativo dos outros palcos, o que a artista reparou mas não deixou isso arruinar o seu mood. Um espetáculo da artista numa sala como a Galeria Zé dos Bois, por exemplo, resultaria ainda melhor por ser um local mais sereno.


Em seguida, veio o concerto da noite: Nick Cave And The Bad Seeds. O australiano parecia um maestro a comandar a orquestra - tudo o que ele mandava as pessoas fazerem, elas faziam. Conta com 40 anos de carreira e ainda assim continua a surpreender tudo e todos por onde passa. Nick Cave tem uma presença mesmo forte em palco que não deixa ninguém indiferente tendo sido sentida desde a primeira fila até às últimas. A carga emocional das suas letras juntamente com a chuva tornaram o concerto ainda mais especial. "Into My Arms" e "The Weeping Song" foram alguns dos temas que originaram isso. Nick Cave é também um artista das pessoas. Sendo o grande nome que é podia querer distância do público, mas esteve quase sempre perto dele. Desde a tocar nas mãos das pessoas até a cantar em cima delas. Esta proximidade também o faz mais vulnerável e mostra que é um artista com tudo na bagagem. Um dos melhores momentos deste concerto foi no final quando em "Push The Sky Away" começou a chamar pessoas ao palco para cantar a música enquanto olhava para elas nos olhos. O que mostrou o ser humano maravilhoso que é.


Como nem tudo pode ser sempre bom, ABRA no Palco Pitchfork deu um espetáculo um pouco estranho. Na primeira música estava a fazer playback. Mesmo com as luzes quase apagadas notou-se isso. Depois cantou algumas canções do EP Princess. "Crybaby" foi o ponto alto do concerto. ABRA tem potencial para ser uma estrela na música urbana, mas ainda precisa de crescer mais um bocado ao vivo.  

Algum tempo depois e no mesmo palco, chegou a espanhola Bad Gyal para meter todos a abanarem o rabo na chuva. Acompanhada por um DJ e duas bailarinas, tornou aquele espaço numa espécie de feira da terrinha onde faltaram os carrosséis e farturas, mas onde a banda sonora foi melhor. Era preciso sangue do outro lado da Península Ibérica para animar a noite, e foi exatamente o que Bad Gyal fez.

Arca teve a honra de fechar o Palco Pitchfork neste último dia. Infelizmente, não veio apresentar os temas do seu brilhante disco homónimo que foi editado no ano passado. Talvez por ser um pouco calmo do que faz ao vivo. Em vez disso, o espetáculo foi um DJ set com a personalidade sexual e forte de Alejandro Ghersi. O músico misturou a sua eletrónica nada convencional com músicas conhecidas, como, "Hollywood" de Madonna. Houve momentos pop, eletrónicos, de metal, de chicotes e muita loucura. Até a chuva abrandou durante algum tempo, após Arca ter partido o guarda-chuva com que entrou. Assim, foi uma ótima forma de encerrar este palco e a noite, apesar de ter continuado para muitos no Primavera Bits.


O NOS Primavera Sound conseguiu realizar, mais uma vez, outra edição com uma vasta mistura de géneros musicais que correu bem. É outra prova que há espaço para tudo e todos nos festivais de música nacionais, e é necessário começar-se a aceitar este facto porque a partir daqui irá continuar a acontecer. 

Texto: Iris Cabaça
Fotos: Iris Cabaça e NOS Primavera Sound 2018: Hugo Lima

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