Super Bock Super Rock 2018: das chamas de Travis Scott à água de Slow J | Watch and Listen!

Super Bock Super Rock 2018: das chamas de Travis Scott à água de Slow J


Longe vão os tempos em que o hip hop não se fazia ouvir pelo Super Bock Super Rock. Longe vão os tempos em que só de indie rock se construía um cartaz e o hip hop conquistou visivelmente o seu lugar. Quer seja para fugir à saturação de ouvir sempre o mesmo, quer seja pela emergência de artistas multifacetados e representativos de toda uma geração, este começa a afirmar-se como o dia de maior enchente no Parque.

Olivier St. Louis teve o prazer de abrir o segundo dia do festival. Vindo de Washington D.C., fez-se acompanhar pela banda Good Compny, de Oddisee e da qual faz parte. Num registo diferente de Oddisee, Olivier St. Louis conseguiu encantar o público que se ia aproximando do Palco EDP com as suas influências de soul, blues e rock. Com o mais recente EP, Ever Since the Fall (2017), na bagagem, o norte-americano estreou-se em Portugal da melhor forma. Ninguém ficou indiferente às suas músicas refrescantes e groovy.

Olivier St. Louis @ Super Bock Super Rock 2018


Profjam provocou a primeira enchente no Palco EDP. Mesmo com um ligeiro atraso no inicio do concerto, causado por problemas técnicos, muitas pessoas ficaram nos seus lugares até ao final. Com o MC Mike El Nite, Profjam fez o que era esperado por quem o segue: trouxe alguns dos seus maiores sucessos e alguns convidados como Yuzi para atuarem com o tema Gwapo. O público sabia as letras todas de cor, o que justificou a sua presença neste dia do festival. 

Profjam @ Super Bock Super Rock 2018


De volta a Portugal, após ter atuado no Vodafone Mexefest  (agora Super Bock em Stock), o rapper e produtor Oddisee conquistou o público português novamente. Trouxe os Good Compny, que regressaram ao palco depois de terem atuado com Olivier St. Louis, e o seu último trabalho The Iceberg (2017). A banda tornou o espetáculo ainda mais orgânico e melhor, tornando o final de tarde num momento recordável. Good Compny foi o elemento que fez falta no concerto de novembro. Músicos que o acompanham na perfeição em cada rima que faz. Oddisee disse que passou de nunca ter atuado por cá para fazê-lo duas vezes em menos de um ano. O que é verdade e ainda bem que assim aconteceu. É sempre bom ver-se um rapper com uma discografia extensa, um flow magnífico e a comandar um palco da maneira que o faz. Esperemos que regresse ao nosso país ainda mais vezes, depois de um novo trabalho.

Oddisee & Good Compny @ Super Bock Super Rock 2018

A cada ano, um palco. Ainda não víamos o final do Super Bock Super Rock do ano passado e já sabíamos quem ia dar que falar na edição que se seguia. E não é que deu mesmo? Slow J pisou pela quarta vez os palcos do Parque das Nações, desta vez a abrir o Palco Super Bock, na Altice Arena.  Para os mais desatentos, o músico setubalense lançou The Art of Slowing Down em 2017 e, desde aí, esgotou salas e fez questionar aquilo de que é feito o hip hop nacional. Ou o rock. Ou o fado. Ou o R&B. Ou o pop. Na verdade, qualquer outro género não é suficiente para definir a maneira como Slow J molda a realidade e a transforma em arte. E foi com Arte que deu início à noite, acompanhado por Fred Ferreira, na bateria, e Francis Dale, nas teclas. É fácil empatizar com as letras deste artista e esse sentimento intensifica-se quando nos apercebemos da humildade que expressa perante a multidão que enche os recantos da Altice Arena. Com a maior espontaneidade, solta um "Foda-se!" aqui e ali, fala com o público sobre aquilo que sente quando cria, da paixão que tem pela música, pede para acenderem as luzes porque está pasmado com o mar de gente que tem à sua frente. Mistura temas de The Art of Slowing Down, como Serenata, Vida Boa e Mun'Dança, que o público acompanha a plenos pulmões, com temas de The Free Food Tape (2015), como Cristalina. E se uma vida boa é ter família à volta da mesa, também não será má ideia ter amigos à volta do palco: Nerve com Às Vezes, Richie Campell com Water (e gritos de toda a plateia), Nunca Pares com Papillon e Plutónio. O sonho teve a forma de um herói: Carlão, ex-Pacman, fez parte do primeiro festival de João Coelho e regressou ao Parque para fazer parte enquanto mentor "emprestado" de Slow J, com  o tema Repetido e direito a Parabéns a Você. Pisou o palco com a confiança e humildade que só podia pertencer ao Slow motherfucking J, como o apelidou Carlão. E quem seríamos nós para discordar. Depois dessa vida vai vir a outra, mas ficamos bem se prometer mais concertos como este.

Slow J @ Super Bock Super Rock 2018

Feminista, destemida, explosiva. Uma combinação que só podia originar um furacão e foi como tal que Princess Nokia chegou ao Palco EDP, sem demorar a pedir que lhe fizessem chegar erva às mãos. A nova iorquina regressou a Portugal com a tour Flowers & Rope, que promove a sua mais recente mixtape A Girl Cried Red, lançada este ano. As opiniões sobre os novos trabalhos de Princess Nokia emergem em extremos: do amor ao ódio, ninguém fica indiferente à princesa rapper. É impossível negar que o álbum de estreia, 1992 Deluxe (2017), continua a ser a sua maior referência e proporciona picos de energia em concerto. Tomboy levou o público ao rubro, assim como Brujas, Kitana ou Goth Kid. Os temas mais recentes mostraram-se mais fracos, com menos adesão dos presentes. Your Eyes Are Bleeding foi marco para uma mudança vocal, o que não terá sido o aspecto mais positivo. Nada mais bonito e necessário de que consentimento e a artista fez questão de relembrar que o seu corpo não é um espaço público e, como tal, deve ser respeitado pelos fãs, por muito que queiram sentir-se próximos dela. "I love you guys so much but please respect my body. Don't grab me and I won't get upset. You respect me and I respect you." E não desiludindo qualquer goth kid presente, teve tempo para Blink 182, com I Miss You, ou Sum 41, com Fat Lip. Parece um pouco fora de contexto, se pensarmos nisso, mas a verdade é que resultou. O empoderamento foi mais longe com a evocação de Solange, através de Don't Touch My Hair. Princess Nokia representa o lado marginalizado do hip hop, o feminismo interseccional, a bissexualidade, a luta pela liberdade de ser e estar numa indústria dominada pelo sexo masculino. 

Princess Nokia @ Super Bock Super Rock 2018


Para quem não viu Anderson .Paak a abrir o concerto de Bruno Mars em 2016, teve aqui outra oportunidade e a espera valeu a pena. The Free Nationals foi a banda em palco que ajudou ainda mais à festa. Tal como o seu colega Bruno Mars, Anderson .Paak também atrai multidões devido às músicas animadoras e à boa disposição que mostra em palco. Ora a sorrir a aproximar-se do público, ora a dominar a bateria, Anderson .Paak trouxe os confettis figurativos à Altice Arena. Vários foram os momentos que mostraram a grandeza do artista. A começar logo com Come Down, passando por Glowed Up (o tema com KAYTRANADA), e até a meter as pessoas a fazerem passos de dança fáceis em Heart Don't Stand A Chance; houve de tudo para fazer um bom espetáculo. E assim o fez. Os elogios ao público não faltaram, e no final foi elogiado pelos presentes. A forma especial como mistura hip-hop, R&B, funk e soul é o que o torna único. Após este concerto inesquecível, só se pode esperar que volte em nome próprio.

Anderson .Paak & The Free Nationals @ Super Bock Super Rock 2018

Imaginemos que dia 20 pode ser representado através de um rio com uma corrente agitada e cada artista se torna num peixe. Os nomes do hip hop representam um cardume e Tom Misch é aquele peixe que nada contra a corrente. A metáfora anterior pode ser um pouco estranha, mas a confirmação do londrino foi um suspiro de alívio audível por parte da minoria que tentava ao máximo desviar-se do género dominante. Desconhecido (mas não ignorado) por grande parte do festival, o cantor chegou para dar uma aula de geografia, cartografando emoções. Filho da plataforma Soundcloud, lançou o seu álbum de estreia, Geography, em abril deste ano, e rapidamente revelou ser mais do que outro artista indie com uma cara bonita e olhos claros. Continua longe dos holofotes mainstream e é ainda uma pedra preciosa a precisar de ser polida. Directo de South London para o Palco EDP, este trouxe temas como I Wish e Crazy Dream, do EP Reverie (2016), ou It Runs Through Me, do seu primeiro e único álbum até à data, aos quais se juntaramoutros trabalhos, como Watch Me Dance do EP Poolside Miami 2017. Se a estreia do londrino em Portugal foi inicialmente marcada por alguma timidez, típica de quem não sabe o tipo de público que vai encontrar, esta acabou por se perder algures entre o palco e o carinho do público. A voz de Misch encaixou confortavelmente na acústica do palco secundário do festival, disfarçando o hip hop com um pouco de jazz e electrónica suave. Desta encruzilhada de influências, surge um talento notável, que promete trazer muitas surpresas ao universo da música alternativa.

Tom Misch @ Super Bock Super Rock 2018

O concerto que se segue não terá sido recomendado para espectadores com pulmões fracos ou pernas bambas. A sobrevivência dos fãs foi desafiada perante o estrondo frenético que se viveu na plateia, nas bancadas, em qualquer milímetro da Altice Arena, durante o concerto do rapper norte americano Travis Scott. Foram várias as pessoas que tiveram de forçar a saída por entre uma multidão que vivia o moshpit com a intensidade de quem lutaria para salvar a vida. Não foi propriamente um espectáculo de capacidade vocal, não fosse o trap uma mistura entre o hip hop e a electrónica e convidativo ao recurso a ferramentas de autotune. Travis usou e abusou do autotune, electrizando e robotizando êxito atrás de êxito. A Altice Arena esteve sempre numa explosão energética que não deu tréguas, motivada por um alinhamento composto por vários temas reconhecidos pelo público: Goosebumps, do segundo álbum de estúdio Birds in the Trap Sing McKnight (2016); Antidote, do álbum de estreia Rodeo (2015); Mamacita, da segunda mixtape Days Before Rodeo (2014). Não esquecer a passagem por Sky Walker, interpretada por Miguel, ou a versão alternativa de Love Galore, da artista SZA. A intensidade sonora deste espectáculo quase parecia conduzir a uma sobrecarga de sensações distintas, não fosse acompanhada por uma exibição visual e pirotécnica de deixar o queixo caído. La Flame fez jus ao seu nome e não poupou nos jatos de chamas, nas máquinas de fumo, nos jogos de luzes, nas projecções de visuals magnetizantes. Foi completo e completou todos aqueles que deixaram a alma arrumada entre saltos e suor.

Daniel Alan Maman é The Alchemist, um DJ, produtor e rapper norte-americano, que abriu o Palco Carlsberg neste dia do hip-hop. The Alchemist já trabalhou com os Prodigy no disco Return of the Mac, em 2007. A partir daí, tem vindo a produzir variados álbuns de hip-hop para outros artistas. Foi desta forma que veio animar o público com temas urbanos. Depois de tantos concertos surpreendentes, foi um ótimo final de noite.

The Alchemist @ Super Bock Super Rock 2018

 

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