Super Bock em Stock 2018: e o privilégio foi mesmo nosso | Watch and Listen!

Super Bock em Stock 2018: e o privilégio foi mesmo nosso


A música voltou a invadir as ruas de Lisboa e as salas da Avenida da Liberdade abriram as portas para os festivaleiros de outono. De horário na mão, ninguém ficou parado e o Super Bock em Stock renasceu para mais uma edição. O primeiro dia, 23 de novembro, sorriu à música portuguesa, aos concertos que não deveriam ter sido sentados e à intemporalidade de Manchester, bem no centro da capital portuguesa.

Fogo-Fogo @ Super Bock em Stock 2018

Deixaram queimar a Casa do Alentejo e ninguém se importou. Fogo-Fogo foram a força necessária para reaquecer os festivaleiros, meio adormecidos depois da hibernação pós-festivais de verão. As janelas permaneceram abertas e o chão tremeu para receber a animação desta banda, que não deixou ninguém parar e fez explodir funaná. Uma homenagem à dança e ao movimento, que tomou conta dos corpos frios de outono. Haja chama para Fogo-Fogo!

Public Access T.V. @ Super Bock em Stock 2018

Os americanos Public Access T.V. rebentaram os níveis de energia do primeiro dia de Super Bock em Stock. A cada escuridão que invadia o Cinema de São Jorge, por entre canções, os fãs renasciam, acompanhavam a banda com palmas frenéticas e o espectáculo continuava. Talvez não fosse o concerto ideal para ficar sentado. E os fãs não ficaram: um a um, acorde a acorde, levantaram-se para dançar Lost In The Game sem qualquer shame. Foi impossível ficar indiferente à agitação destes quatro rapazes. A voz grave do vocalista John Eatherly derreteu a plateia em Wait It Out, mas não evitou que esta tivesse sido uma das músicas mais contagiantes, onde bater o pé foi o primeiro impulso. A junção entre os graves e as batidas electrizantes tornaram este concerto numa das surpresas mais agradáveis da noite. Para terminar, depois da passagem por temas como Evil Disco, do álbum de estreia Never Enough (2016), ou Metrotech, do segundo álbum Street Safari (2018), apresentaram uma nova música, nunca antes tocada. Em certos momentos, foi fácil imaginá-los como os Parcels da new-wave nova-iorquina. E não descobrimos quem é a Marta, mas não deixou de ser palavra de ordem neste concerto.

Conan Osiris @ Super Bock em Stock 2018

Bastou atravessar a rua e não foi difícil perceber que a fila preenchia o passeio que circunda o Teatro Tivoli. E foi num Tivoli cheio que se esperava por Conan Osiris, com os ouvidos nos "isto é para ver de pé" que se espalhavam pela sala. Com uns minutos de atraso e uma sala invadida por gritos que repetiam "Conan, Conan, Conan" incessantemente, ninguém conseguia ficar sentado. Numa escuridão monumental, Conan surge para cantar Beija Flor acapella e faz o público explodir em ovações. Corpos levantados para dançar ao som de Borrego, para cantar a plenos pulmões o tão baladado Pro Baralho, para acompanhar 100 Paciência, sem esquecer os movimentos hipnotizantes do bailarino João Reis Moreira. Com muita pena de não ficar até ao fim, escusado será dizer que (Conan) Osirismo se levanta como a nova religião que arrebatou a música portuguesa em 2018.

Johnny Marr @ Super Bock em Stock 2018

Ao contrário do esperado, o Coliseu dos Recreios não estava invadido por uma multidão para ouvir a outra metade dos britânicos The Smiths (sim, a metade que não cancela concertos). Culpamos Conan Osiris e a triste sobreposição com Johnny Marr, mas tal não impediu que a sala estivesse composta e fosse ficando gradualmente mais cheia. Com o estilo característico de jovem do rock a continuar refletido na sua postura em palco, Marr introduziu-se a Lisboa com The Tracers, mas pouco demorou para sermos transportados para um passado quase intocável: Big Mouth Strikes Again, com a guitarra inicial, reconhecida por qualquer um dos presentes. Não é a voz de Morrissey, mas não se esforça por sê-la: é a voz e a guitarra de Marr que nos faz sentir presentes num clube de Manchester nos anos 80,  sem sair da plateia de uma das maiores salas de espectáculos lisboeta. Descontraído, sem perder a rebeldia despreocupada do rock britânico, Marr continuou com um concerto dividido entre o seu trabalho a solo, que puxava pela energia dos fãs mais implacáveis, e o trabalho de antigas colaborações, que fazia acordar o público geral. A satisfação estava espelhada na expressão de Marr e os fãs vibravam nas primeiras filas. Ouviram-se temas como New Dominions, Easy Money, Getting Away With It (em homenagem à disco de Manchester) e How Soon Is Now?. Despediu-se com There's A Light That Never Goes Out, com o Coliseu a cantar numa só voz. Sem querer soar cliché, não seria possível abraçar as músicas intemporais dos The Smiths sem cantarolar aquele to die by your side, well, the pleasure, the privilege is mine e adaptá-lo à estranha leveza nostálgica que o concerto de Johnny Marr trouxe ao Coliseu dos Recreios.

A estreia de Natalie Prass em Lisboa aconteceu no Cinema São Jorge e conseguiu ocupar todas as filas da Sala Manoel de Oliveira, com The Future And The Past (2018). Apesar de ser claramente um nome de passagem para muitos dos que saíram para ver os rapazes de Alvalade, Capitão Fausto, no Coliseu dos Recreios, Prass conquistou alguns fãs nesta curta passagem por Portugal, não fossem várias as pessoas que diziam ter saído surpreendidas ou cujas expectativas ficaram arrebatadas pela voz da artista. Porém, talvez tenha decepcionado aqueles que acompanhavam o seu trabalho e esperavam mais. Elogiando Lisboa, disse não querer voltar para casa. Dividida entre a política Ship Go Down, numa mensagem dedicada à América, entre música para ouvir antes de uma sexta à noite ou entre a animada Never Too Late, a artista mostrou que vale sempre a pena espreitar as salas e ir em busca do desconhecido.


Texto: Carina Soares
Fotos: Iris Cabaça

0 comments:

Enviar um comentário