NOS Primavera Sound: quando a chuva não cancela | Watch and Listen!

NOS Primavera Sound: quando a chuva não cancela


Arrancou mais uma edição do NOS Primavera Sound, na cidade do Porto. Com muita chuva à mistura, os festivaleiros demoraram a ocupar o recinto, mas nada que uns ponchos oferecidos pela organização não tivessem tentado resolver. Apesar dos cancelamentos de última hora, nomeadamente da artista Ama Lou e da DJ Peggy Gou, o alinhamento do primeiro dia contou com nomes como Solange, Men I Trust, Danny Brown, Miya Folick e Dino d'Santiago


Nem a tempestade foi capaz de roubar os ritmos quentes a Dino d' Santiago. Poucos eram os resistentes à chuva que caiu na cidade invicta, mas o Palco Super Bock acolheu todos aqueles que fizeram questão de aproveitar cada minuto do festival. Um concerto que deu voz à nação criola e ritmo aos pés da música lusófona. Dino d' Santiago veio trazer-nos Mundu Nôbu, álbum que lançou o ano passado, e o transformou num dos artistas com maior destaque no espectro do afrohouse português. Para além de tocar Fidju Poilon ou Nova Lisboa, o caboverdiano fez com que a reviravolta chegasse em Como Seria. Esta fundiu-se com Nôs Funaná, através de uma transição que rumou à electrónica e intensificou as danças tímidas por parte do público. O artista pediu aproximação e desceu ao relvado. O pedido deu lugar a um círculo de corpos a abanar ao som de Nôs Funaná, o final do primeiro concerto do dia. Dino despediu-se, sem deixar de mencionar e agradecer o momento de união que se fez sentir e nos transformou numa família com um amor comum: a batida. Trouxe um pouco de Alfama e Cabo Verde ao Parque da Cidade, numa mistura entre a festa e a melancolia.

Dino D'Santiago @ NOS Primavera Sound 2019


Men I Trust vieram suavizar o Palco Super Bock. Emma Proulx, que já tínhamos mencionado neste artigo, é a voz que nos faz sentir abraçados por um conforto que só a música nos sabe dar. A banda canadiana traz uma das sonoridades mais aconchegantes desta edição, que se traduziu num concerto calmo, sem grandes mudanças inesperadas. Os fãs foram embalados pelo sussurro melódico que tão bem caracteriza a voz de Emma, associada ao indie dream electrónico dos canadianos. No Palco Super Bock, ouviram-se singles como I Hope to be Around (2017), Lauren (2016) ou Tailwhip (2017). O sol espreitou por entre as árvores, Emma sorriu e agradeceu aos fãs pelo amor daquele fim de tarde. See you sometime, Men I Trust.

Men I Trust @ NOS Primavera Sound 2019

A portuguesa Mai Kino abriu o Palco Seat às 19.45h, devido ao cancelamento de última hora de Ama Lou, e levou-nos numa viagem espiritual pela sua electro-pop sonhadora. No princípio, encontravam-se poucas pessoas no público, mas à medida que o tempo passava e após o final do espetáculo dos Men I Trust, começou-se a compor. Com os temas June, The Waves, Young Love e a sua voz doce e ritmos eletrónicos, encantou o público do festival.

Mai Kino @ NOS Primavera Sound 2019

O rapper Tomm¥ €a$h move-se pela estranheza, pelo rídiculo que agarra e molda para criar algo que custa delimitar e definir. Tomm¥ €a$h  é só Tommy Cash e faz o que faz sem justificações concretas. Vindo da Estónia para o Mundo, Tommy já tinha passado pelo Musicbox em Lisboa e pelo Passos Manuel no Porto, em 2016. Três anos se passaram e voltou para agitar o Palco Super Bock. Do público, ouvia-se Tommy! Tommy! Tommy! a um ritmo quase tão rápido como as imagens projectadas, que passavam sucessivamente e mostravam o mundo gráfico do artista. A sonoridade de Tomm¥ €a$h  é completada por um inglês com sombras da pronúncia do leste europeu e os sons do trap, do trance e do hip-hop. Os singles PUSSY MONEY WEED e Little Molly ou X-RAY do álbum ¥€$ (2018) fizeram parte do reportório trazido para o Parque da Cidade.

Tommy Cash @ NOS Primavera Sound 2019

Não são irmãs, mas parecem-no. Rosa Walton e Jenny Hollingworth são as Let's Eat Grandma e estiveram no Palco Pull and Bear a mostrar todo o seu girl power explosivo. O pop experimental do duo é quase magnetizante e o público consegue sentir uma conexão imediata com as britânicas, que fazem do seu concerto um jogo entre o equilíbrio e o desequilíbrio, o branco e o preto, o bom e o mau. Sempre de sorrisos e com danças descoordenadas, estas mulheres trouxeram a sua energia empoderadora através de músicas como Falling Into Me ou Cool & Collected do álbum I'm All Ears (2018). Um concerto que mostrou que basta uma boa bateria, duas boas vozes e uns bons sintetizadores, sem grandes acessórios além. Os singles It’s Not Just Me e Hot Pink foram dois dos momentos mais intensos do concerto. A produção destas músicas mais agitadas esteve ao cargo de SOPHIE, que ocupa o mesmo palco na madrugada do segundo dia do festival.

Let's Eat Grandma @ NOS Primavera Sound 2019

A Miya Folick tem tudo para ser a pop star ideal: a atitude, o encanto, a voz e as músicas e foi isso que veio mostrar ontem no Palco Pull & Bear. A americana apresentou o seu disco de estreia, Premonoitions, editado no ano passado. As músicas Cost Your Love, Stock Image e Dead Body fizeram parte do alinhamento. A maior surpresa foi quando fez uma cover de "Nothing Compares 2 U" de Sinéad O'Connor, o que deixou o público em êxtase. Apesar deste estatuto pop, de vez em quando também caminha até ao rock com músicas mais dentro desse estilo e a puxar mais pela sua voz. Asssim, foi uma estreia boa de assistir. 

Miya Folick @ NOS Primavera Sound 2019

O canadiano MorMor foi outra estreia em Portugal. Ainda só com dois EPs, Heaven's Only Wishful (2018) e Some Place Else (2018), foi a altura ideal para vir atuar no nosso país porque é provável que daqui a algum tempo se torne num grande nome. O horário perfeito para este concerto teria sido ao pôr-do-sol porque as suas canções moody, profundas e calorosas puxam pela golden hour que só o Primavera sabe trazer. Mesmo assim, a sua voz grave misturada com um falsetto marcante assentou perfeitamente bem no festival. A meio começou a chover, o que contribuiu para tornar os seus temas ainda mais bonitos.

MorMor @ NOS Primavera Sound 2019

Danny Brown trouxe um pouco da história do hip-hop consigo para o Palco NOS. O rapper conta com 5 álbuns editados e mais de 10 anos de carreira. Abriu o concerto com Rolling Stone para animar o público. A realidade é que o seu flow único não é para todos, mas aqueles que gostam gritaram as letras das músicas e começaram um mosh. Inclusive, miúdos e graúdos sabiam as tudo de cor e é assim que um artista com tanta história deve conseguir concretizar na sua carreira. Apenas com um DJ atrás de si e a correr de um lado para o outro em palco, realizou os desejos dos seus fãs.  

O nome mais esperado do primeiro dia do NOS Primavera Sound era a mítica Solange. Um palco NOS visivelmente mais completo, quer a nível de stage, quer a nível do público, aguardava o começo daquele que veio a ser o concerto da noite por unanimidade. Solange transformou um concerto de uma hora numa ode ao black power e à feminilidade. A cumplicidade entre Solange e os seus companheiros de palco, quer nos instrumentos, quer na dança e na perfomance, demonstrou o porquê das altas expectativas em relação à sua presença no palco e a maneira como estas corresponderam à realidade. Uma equipa constituída por artistas negros reforçou o impacto e o talento, a resiliência daqueles que são muitas vezes estereotipados como material apenas para o hip-hop: a coordenação de movimentos foi irreal. Um dos momentos mais sensuais da noite veio com Way To The Show, que também levou o público ao rubro. O público cantou em uníssono F.U.B.U., Don't Touch My Hair e Almeda, incentivado pela artista, que passou o concerto na íntegra a sorrir para os fãs e a falar com eles. Com agudos capazes de impressionar qualquer um e fazer cair muitas bocas, Solange prova que é uma das melhores vozes dos palcos da atualidade. O seu mais recente álbum, When I Get Home, saiu este ano e foi considerado, para muitos, já um dos melhores de 2019. Tirou mesmo um momento para agradecer, falando dos tempos que passou na igreja e na forma como a fé a move e como move o mundo, independentemente dos contornos que esta possa assumir para cada um. Soube a limpeza da alma, quase como renascer. Até mesmo quando o granizo ameaçou desertar o recinto.

Mesmo com vários cancelamentos e um recinto visivelmente mais vazio, repleto de fugidos à chuva, o primeiro dia arrancou em força.

Texto: Carina Soares e Iris Cabaça
Fotografia: Iris Cabaça


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