Nerve no Sabotage: um peixe a colher rimas | Watch and Listen!

Nerve no Sabotage: um peixe a colher rimas


Na última sexta-feira, 6 de março, Nerve estreou-se no palco do Sabotage Club para apresentar novos temas, e não só. Além disso, trouxe um convidado especial. A primeira parte, e os beats ficaram a cargo do produtor IL-Brutto.

IL-Brutto é João Pedro Almeida, o novo produtor favorito de Nerve, e o seu mais recente colaborador, percebe-se o porquê. Em fevereiro, lançou Hella Joints Vol. I - Instrumental Series com onze faixas instrumentais. No warm-up desta noite, transportou o público para esses beats com influências do hip-hop clássico dos tempos primórdios. Assim foi durante todo o seu set. Depois, continuou em palco para o rapper se juntar.

Il-Brutto @ Sabotage Club

Talvez Nerve seja um nome demasiado conhecido para atuar numa sala tão pequena como o Sabotage. A prova disso foram os bilhetes esgotados e os fãs que ficaram à porta por não conseguirem entrar. Ou talvez apenas quisesse um sítio mais intimista para expor a pujança das suas letras. De qualquer das formas, o público encontrava-se ansioso e impaciente pelo concerto. Após alguma espera, "Queimar Pontes" deu início ao despejar de rimas que continuou durante cerca de uma hora. Começou por Água do Bongo (2014), tendo passado para o EP Auto-Sabotagem (2018) com "Deserto", anunciando que "dá para ver que acabei de chegar", e percorreu até ao disco de estreia Trabalho & Conhaque ou A Vida Não Presta e Ninguém Merece a Tua Confiança (2015) ao mostrar o seu "Monstro Social". 

Ao longo do concerto, reparou-se imediatamente que Tiago Gonçalves sente as suas letras dos pés à cabeça na forma como se movimenta de um lado para o outro, como gesticula e como evoca cada palavra de forma acentuada e acertada, o que dá ainda mais força às músicas. Com uma forma de escrever versos inconfundível, há momentos onde parece que está a recitar-nos um poema íntimo enfiado na subconsciência do seu cérebro, mas que, felizmente, é partilhado com várias pessoas. Ao optar pelos versos de "Loba" e "Às Vezes", a colaboração com Slow J, que destruiu a esperança do rapper se juntar em palco "não, ele não vem", à acappella despidas de qualquer beat, ajuda a criar esse ambiente. 

Não foi só com IL-Brutto que fez a festa. Ainda convidou Tilt para atuarem "Eliminação" de Fuse juntos. Também trouxe "Ingrato", retirado do disco Bairro da Ponte (2019), de Stereossauro com DJ Ride, "Umbilical" de Colónia Caluna e "Funeral" de Mike El Nite. O melhor ficou para o final com a nova e complexa música "Tríptico" em colaboração com IL-Brutto. Foi a primeira vez que a apresentou ao vivo, e podia parecer nervoso por ter, como disse, "três instrumentais", mas mal se ouviu os primeiros segundos entregou-se por completo sem nenhuma falha. "Chibo" de Auto-Sabotagem deu por encerrado o concerto. 

As letras de Nerve, que podiam ser só poemas, sobre "a vida não presta", suicídio, relações e ego tocam bastante os seus fãs, que as cantaram ao longo do concerto, levando o rapper a soltar sorrisos com um ar de surpreendido. Uma lírica que mais nenhum rapper nacional consegue alcançar, como se dum peixe a colher rimas se tratasse. Ter tido IL-Brutto ao seu lado com a parte instrumental, ajudou a enriquecer as canções. Ainda mais, o ambiente intimista proporcionado pelo tamanho da sala, serviu para aproximar ainda mais o artista de quem o foi ver.


Nerve @ Sabotage Club

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