I May Destroy You: como contar uma história importante


Criada, escrita e protagonizada por Michaela Cole, I May Destroy You é uma série de extrema importância nos dias de hoje, porque fala de assédio sexual ao mesmo tempo em que explica o porquê de ser errado. 

TW: spoilers e assédio sexual.

I May Destroy You foi baseada numa situação real que aconteceu a Michaela Coel enquanto filmava a série Chewing Gum (2015), também escrita e protagonizada pela própria, com várias diferenças entre si e Arabella. No primeiro episódio, Arabella tenta começar a escrever o seu próximo livro nos escritórios da sua empresa. À noite, decide ir beber uns copos com amigos e acaba por ser violada na casa-de-banho do bar, após ter ingerido uma bebida drogada. A partir daí, irá abordar os diferentes aspetos de consentimento na perspetiva de cada personagem. 

Os assuntos abordados sobre assédio sexual e consentimento, tanto em relações como fora delas, são cada vez mais falados, principalmente nas redes sociais e com o movimento #MeToo, e era necessário existir uma série deste género a falar sem pudores e a colocar várias questões. Ao longo de cada episódio, há cenas que, aparentemente, podiam não ter nada de problemático, mas acabam sempre por mostrar que são erradas e o porquê: a vítima não ter dito que sim nenhuma vez. Ao contrário de quase todas as séries e filmes que têm cenas sobre assédio sexual, onde nunca há um momento para se mostrar o quão errado é, a série expõe diversos problemas da forma mais correta.

Em cada episódio, há partes que nos fazem questionar coisas que alguém fez ou algo que ocorreu. Experiências que são desconfortáveis, mas que não pareciam graves na altura. Quando Arabella tem relações sexuais consentidas, no princípio, com Zain (Karan Gill), um colega da editora que a está a ajudar a escrever o livro, e ele tira o preservativo a meio, sem lhe dizer nada. Arabella acaba por expô-  lo num evento da sua editora para mostrar o mal que ele fez. Ou quando Terry (Weruche Opia) tem um ménage à trois em Itália, que foi planeado por dois amigos, sem lhe terem transmitido uma palavra sobre isso. E, também quando Kwame (Paapa Essiedu) vai ter com um homem que conheceu no Grindr e é violado, ficando em choque. Depois, decide fazer queixa na polícia e não é levado a sério, contrariamente ao que aconteceu a Arabella, por os agentes não saberem como tratar de um assédio sexual sendo a vítima um homem. Além de colocar todos estes problemas na tela, ao mesmo tempo, mostra como a sociedade ainda os vê e trata as vítimas.

No episódio final, Arabella volta ao bar onde tudo aconteceu para ver se o seu violador aparece porque «o criminoso volta sempre ao local do crime», o que acabar por se concretizar. E é só a parte que parece suceder, pois o resto são cenários imaginários na sua cabeça sobre o que ela pensa fazer ou que poderia fazer ao criminoso. 

A série da HBO e da BBC, é realmente importante porque, até agora, nunca se tinha visto a questão do consentimento sexual abordada de uma maneira séria, a expor a gravidade de cada situação e a mostrar a realidade. Ainda mais, mostra o quão talentosa é Michaela Cole que não só é a heroína da história, como também a criou e a escreveu brilhantemente.

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