Alguien tiene que morir de aborrecimento

Alguien tiene que morir estreou a 16 de outubro na Netflix. A nova minissérie de Manolo Caro parecia prometer e revelar-se uma boa surpresa, desde o elenco ao trailer, e é apenas um tiro no escuro.

A minissérie foi produzida por Manolo Caro, que também criou a produção mexicana La Casa de las flores, e conta com Ester Expósito (Elite), Carmen Maura (Águila Roja), Cecilia Suárez (La casa de las flores), Alejandro Speitzer (Aventuras en el tiempo), Isaac Hernández (El rey de todo el mundo), Carlos Cuevas (Ventdelplà), entre outros, no elenco. Após um contrato exclusivo com a Netflix, Caro decidiu criar uma série que juntasse atores espanhóis e mexicanos. Alguien tiene que morir é sobre a sociedade conservadora espanhola nos anos 50, durante o franquismo – o período de ditadura em Espanha desde 1939 até 1975-, e uma disputa entre duas famílias ricas: a Falcón e a Aldama. O resultado final acaba por ser uma história retrógrada e vista milhares de vezes. Apesar de ser considerada um thriller, não acerta em nenhuma característica do mesmo, pois a música é a única coisa que relembra o género. 

Gabino Falcón (Alejandro Speitzer) regressa a Madrid depois de ter vivido no México durante muitos anos, após a morte do seu avô paterno. Traz consigo o seu amigo Lázaro (Isaac Hernández), um bailarino, e gera suspeitas de que ambos são gays. No entanto, os pais de Gabino, Mina Falcón (Cecilia Suárez) e Gregorio Falcón (Ernesto Alterio), arranjam-lhe um casamento com Cayetana Aldama (Ester Expósito), e começam os problemas. Cayetana é quem espalha a suposta orientação sexual de Gabino e Lázaro e pensa que ambos são namorados quando o último a rejeita. Na realidade, o bailarino gosta da mãe de Gabino, Mina, e este e Alonso Aldama (Carlos Cuevas) revelam que gostam de homens. No final, acontece uma discussão com estas personagens todas, exceto Cayetana e Gregorio, onde Amparo Falcón (Carmen Maura) aparece com uma arma a querer matá-los a todos. Apenas Mina e Gabino sobrevivem ao confronto. 

Com tantas coisas a acontecerem diariamente no mundo e com tantas narrativas inovadoras, era necessário criar-se um plot conservador que não traz nada de novo? Óbvio que não. Felizmente, tem só três episódios super nacionalistas e patriotas, onde há várias referências a Espanha ser o "melhor país". Isto tudo, no regime fascista de Francisco Franco, o que é ainda pior. Numa época com tantos ideais tradicionais, existe homofobia que é retrata de uma forma horrível. Pois, quando o pai de Gabino descobre que o filho é gay, rapidamente, o coloca na prisão onde trabalha por esse dito crime, e deixa-o ser torturado pelas guardas. Antes disso, Alonso espanca-o até à morte. Estes momentos infelizes não deveriam ser representados desta forma em 2020, mesmo que sejam um retrato de como era a sociedade em 1954, por serem problemáticos. Além disso, no final não há nenhuma resolução quanto à orientação sexual de Gabino e Alonso - o primeiro apenas a mãe e Lázaro o aceitam, e o segundo morre – e quem, também, tem azar é o dançarino que morre com um tiro por se encontrar no meio da confusão. Talvez Manolo Caro devesse ter-se inspirada nas últimas séries de Ryan Murphy, Hollywood e Ratched, por exemplo, porque as personagens têm o seu final feliz. Parece que a intenção é mostrar que a homossexualidade está errada, em vez de dizer que o errado é a homofobia e a forma como as personagens agem sobre isso.

Apesar de ter um elenco bastante bom e misturar atores veteranos com mais novos, não é o suficiente para tornar os três episódios minimamente interessantes. Até para os fãs de Elite que possam escolher ver por causa de Ester Expósito, nem vale a pena porque tem um papel semelhante, mas, honestamente, pior por ter pouco contexto. Ou até a musa de Pedro Almodóvar nos anos 80, Carmen Maura. A prova de que um elenco conhecido pode fazer números, mas não faz uma história. Algo que a Netflix precisa de parar de pensar que basta, como aconteceu em Emily in Paris e The Devil All The Time. Todos dão o seu melhor com o guião aborrecido, e sem ir muito ao fundo das questões, que têm. 

Para Alguien tiene que morir ficar ligeiramente cativante, faltava uma conclusão mais forte no fim, porque pelo título espera-se logo que alguém vai morrer e é o que ocorre, uma história melhor e mais edição para gerar mais ação e menos momentos mortos, algo fácil de se fazer em apenas três episódios. A ideia da série até parecia boa, mas falha em todos os níveis e não há nada que a salve, nem o elenco.Pelo menos, não há a hipótese de outra temporada por ser uma minissérie.

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