Fake It Flowers de beabadoobee: a nova sonoridade do indie


O álbum de estreia de beabadoobee foi editado a 16 de outubro com o selo da Dirty Hit. Fake It Flowers explora várias sonoridades de uma nova artista que pode criar tudo o que desejar. 


Beabadoobee é o nome artístico de Bea Kristi que começou a lançar música em 2017. A artista é uma das caras de uma nova geração de músicos criados pela internet. Começou por aprender guitarra através de tutorias no Youtube aos dezassete anos e inspirou-se na banda sonora do filme Juno para criar os seus primeiros temas. Apesar da sua sonoridade estar mais para o lado indie, foi no TikTok que ganhou sucesso. No princípio deste ano, o artista lo-fi Powfu usou um sample de "Coffee", a primeira música que Kristi lançou, em "death bed (coffee for your head)", e, rapidamente, se tornou viral na app e foi partilhada por milhões de utilizadores. Inclusive, entrou em tops musicais em vários países. Em 2018, editou dois EPs, Lice e Patch Up, e, em 2019, mais outros dois, Loveworm e Space Cadet. Loveworm até mereceu uma edição especial apelidade Bedroom Sessions. Também abriu os concertos dos seus colegas da editora Dirty Hit Clairo e The 1975. Agora, chegou o álbum de estreia Fake It Flowers.

As canções para o álbum começaram a ser construídas no seu quarto de infância em Londres, como fez desde o princípio da sua curta carreira, e são inspiradas no rock dos anos 90, claramente a maior das suas influências. O bedroom pop das primeiras músicas transformou-se num rock alternativo no EP Space Cadet. Em Fake It Flowers é muito mais explosivo e agressivo. A abertura do disco é realizada por "Care" que começa de uma forma ternurenta, mas em poucos segundos cresce numa espiral recheada por riffs de guitarra calorosos. A seguir, "Worth It" faz qualquer ouvinte ter a vontade abanar a cabeça ao som da melodia combativa. "Back To Mars" funciona como um interlude para a parte mais pessoal do LP.


O momento mais singular começa com "Charlie Brown", onde Bea grita num refrão inundada de punk. Ainda mais, há tempo para se relaxar e refletir com os temas lo-fi "Emo Song", "Sorry" e "Further Away". Contudo, a energia de rock-star regressa no final com "Together" e "Yoshimi, Forest, Magdalene". Um trabalho que consegue juntar vários géneros musicais, como, rock, lo-fi, punk, folk e pop de uma forma que chega a ser caótica, mas no bom sentido e com temas que, de certeza, resultam bem ao vivo, principalmente em festivais de verão.  

A intimidade das suas letras é crua e desprendida de qualquer pretensiosismo, o que define a sua composição, pois, vão diretas ao assunto, são honestas e bastante pessoais. Ao mesmo tempo, abordam romance, problemas mentais, liberdade, infância, aceitação, e muito mais. Em "Dye It Red", canta sobre a emancipação de uma mulher quando está numa relação abusiva (So let me cut my hair and dye it red if I want to/ I haven't felt myself so comfortable/ I'm not stopping now). O seu lado mais romântico aparece em "Horen Sarrison", que é um trocadilho com o nome do seu namorado Soren Harrison, e origina uma declaração de amor (You are the bus that stayed when I thought I was late/ So I'm convinced you're from outer space). "Charlie Brown", sim da banda desenhada com o mesmo nome, fala sobre o tema delicado da auto-mutilação (Back on old habits/ That no one knows about). Resumidamente, palavras com que muitas pessoas provavelmente se conseguem identificar.

Num género dominado, como em quase todos, maioritariamente por homens, um álbum alternativo feito por uma mulher é uma lufada de ar fresco, e Fake It Flowers consegue exatamente esse feito. Além disso, beabadoobee é, obviamente, a cara de uma geração que pode fazer tudo o que lhe apetecer a partir do seu quarto com a ajuda da Internet e ter sucesso enquanto o faz. 

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