Rock in Rio 2018: O segundo dia | Watch and Listen!

Rock in Rio 2018: O segundo dia


Foi com um recinto a rebentar pelas costuras que se viveu mais um dia na Cidade do Rock. O segundo dia do Rock in Rio Lisboa arrancou com 85 mil festivaleiros, que esperavam pelo funk de Anitta, a nostalgia de Demi Lovato e a dança interplanetária de Bruno Mars.

"Façam barulho, Lisboa!", gritou Capicua a aquecer o Music Valley, acompanhada por Emicida e Rael. Juntos formam Língua Franca, um projecto lusobrasileiro gravado entre São Paulo e Lisboa, do qual Valete também faz parte. O último não esteve presente em palco e cedeu o lugar à convidada Sara Tavares, que preencheu essa ausência com a sua voz vibrante, que tão familiar soa depois de conquistar gerações nos seus vinte anos de carreira. A batida esteve a cargo do baterista Fred Ferreira, que trabalhou com nomes como Orelha Negra, Buraka Som Sistema, 5-30 e Banda do Mar. Capicua, a autoproclamada comandante da guerrilha cor-de-rosa, trouxe a palco êxitos como Vayorken ou Maria Capaz. Poucos eram aqueles que não sabiam a letra da menina que não sabia dizer Nova Iorque e queria ser prof de windsurf. E aqueles que vieram para dançar, viram os seus desejos concretizados com A Chapa é Quente, cuja batida foi capaz de fazer o chão tremer. Sara Tavares entrou em palco para AFROdite, música que recordou a sua capacidade vocal arrepiante e levou o público ao rubro. É de destacar a passagem por Génios Invisíveis ou Ideal, reconhecidas por aqueles que ficaram a ouvir o hip hop daquele fim de tarde. Falar de Língua Franca é falar de representatividade para miúdos e graúdos: não só as letras põem em contacto realidades multiculturais, de raízes distintas, como também miúdos e graúdos se juntam para admirar as figuras com as quais se identificam. Falar de Língua Franca é falar de Emicida a relembrar a importância dos sonhos, é falar de Capicua a relembrar o poder revolucionário feminino, é falar de Rael a sorrir para a criança que dançava e o fotografava na primeira fila. Foi uma "tarde muito gostosa".

Língua Franca com Sara Tavares @ Rock in Rio Lisboa 2018

Dizem, em tom de piada, que o melhor do Brasil é o brasileiro e foi com um gigante contentor Made in Brazil que Anitta e a sua equipa invadiram o primeiro palco europeu da sua história. Num Dolce Gabbana de inspiração Carmen Miranda, Anitta transformou a Cidade do Rock na temporária Cidade do Funk. Fez acontecer ao agitar a cidade com Bang, o princípio do teste de resistência aos glúteos do público funkeiro em part-time. Os ritmos latinos de Machika e Ginza, ambas com J. Balvin, juntaram-se a Is That For Me, com Alesso, para internacionalizar o espectáculo e abrir caminho para um abrandar momentâneo do mesmo. Passando de coreografias sensuais e complexas para uma simplicidade de movimentos e o lento padrão com chapéus coloridos, a artista passou para Will I See You, com Poo Bear, e ainda Garota de Ipanema, numa homenagem à original de Tom Jobim. E que coisa mais linda, mais cheia de graça foram esses instantes antes da primeira saída da cantora. Nos pequenos intervalos, o público aplaudia intensamente a dança enérgica dos bailarinos: a diversidade foi uma das maiores surpresas, associada ao talento evidente daqueles que se fundiam com o ritmo das músicas. Quando regressa, quase conseguimos sentir uma mudança na atmosfera: o rebolar tinha chegado e tinha vindo para ficar. O medley de Loka/Você Partiu Meu Coração/Essa Mina É Loka foi o arranque dos maiores sucessos de Anitta, que surgiram um atrás do outro, sem dar oportunidade de recuperar. Downtown, Paradinha e Indecente levaram a brasileira aos mercados internacionais e fizeram sucesso no mercado português, como foi fácil reconhecer perante a quantidade de pessoas que acompanharam (alto e bom som) o "ah, ah, ah" de Paradinha ou o "a mí me gusta cuando baja downtown" de Downtown. Muitos tentaram juntar dois mais dois e acreditaram que Pabllo Vittar apareceria para Sua Cara, depois da sua presença surpresa no Arraial Pride na noite anterior; não aconteceu. O furacão brasileiro pensou no improvável com a entrada ao som de Mariah Carey, com a dança ao som de Faz Gostoso da Blaya ou de Olha a Explosão do Mc Kevinho. Impressionou com glúteos que só podem ter vida própria, deu um show de poderosa. E se o público pensou que ia rebolar a bunda nesse dia, rebolou mesmo. Anitta é a prova viva de que o funk está a crescer para além do Brasil e não vai parar. É a representação de todo o sucesso que, como referiu num agradecimento emocionado, ninguém acreditou que um funkeiro pudesse ter. Foi primeira mulher funkeira a pisar o palco do Rock in Rio. Veio para ser malandra e não desiludiu!

Não é fácil recordar o concerto de Demi Lovato sem ser atingida por uma nostalgia quase imediata.  Demi não é propriamente desconhecida para uma geração que cresceu a acompanhar Camp Rock (2008) e o universo Disney. No entanto, limitar os seus dez anos de carreira a esse fenómeno seria reduzir a óbvia evolução artística e pessoal da artista. Naquela que foi a sua estreia em Portugal, a cantora fez com que pessoas de todas as idades rumassem ao Parque da Bela Vista e se transformassem em "milhões de estrelas". O inesperado foi palavra de ordem. Ninguém esperava que Demi perguntasse pelos seus old lovatics, muito menos que isso se seguisse de Catch Me e Don't Forget e dos gritos estridentes por todo o recinto. Ninguém esperava que as lágrimas caíssem ao som de Skyscraper. Nem só da ida ao baú se construiu um espectáculo: os ritmos animados de Cool for the Summer, Sorry Not Sorry ou Heart Attack foram o suficiente para contagiar o público e fazê-lo puxar pela garganta a acompanhar cada milímetro das músicas. Echamé La Culpa, com Luis Fonsi, e Solo, com Clean Bandit, foram sucessos que também estiveram incluídos no espectáculo e fizeram dançar até os mais calmos. O público gritou, chorou, tremeu, tentou recuperar numa noite todos os concertos que não pode aproveitar nos últimos dez anos. Demi mostrou que os agudos não a intimidam e que está cada vez mais confiante no seu trabalho. O culminar? A primeira vez a ouvir-se Sober em concerto. Lançada três dias antes da passagem pela Cidade do Rock, esta é um desabafo comovente. É um pedido de desculpas. Foi o motivo pela qual a voz tremeu com a iminência do choro, as luzes se apagaram repentinamente e o vazio ocupou o Palco Mundo, deixando para trás os aplausos ensurdecedores e o pequeno ecoar de This is Me.

Rock in Rio Lisboa 2018: 2º dia - ambiente

Bruno Mars, o nome que garantiu um Rock in Rio esgotado, chegou com um atraso de quinze minutos, contribuindo para aumentar a ansiedade miudinha daqueles que o esperavam. O norte americano regressou para relembrar o porquê de ser um dos melhores artistas da pop atual. Depois da passagem pelo nosso país no ano passado, foi com muita dança, com um espectáculo de luzes que ocupava o céu até ao fundo do recinto e a falar português que garantiu mais um concerto inesquecível. Com a sonoridade típica dos anos 90, Mars abriu o concerto com Finesse, e logo deu lugar à sensual That's What I Like. Fez qualquer um andar numa montanha russa de emoções: passar da arrepiante Versace On The Floor para a frenética Runaway Baby foi, no mínimo, um teste à capacidade de adaptação dos festivaleiros. Uptown Funk, a estrondosa colaboração com Mark Ronson, foi a porta de despedida. E não só Bruno quer Portugal, como Portugal o quer a ele: minutos depois do final do concerto, alguns fãs já imploravam o regresso do músico.

Pelo Music Valley, o lusoamericano Mishlawi fez levantar os braços dos presentes ao som da sua mistura de trap, R&B e hip-hop. Ainda com uma reduzida bagagem musical, da qual fazem parte os mais recentes singles ignore, fmr e afterthought e ainda Boohoo, colaboração com Richie Campbell, o artista começa a dar provas de ser um nome no qual vale a pena estar de olho. Os próximos tempos parecem prometer.

Mishlawi @ Rock in Rio Lisboa 2018


Edição: Carina Soares
Fotos: Iris Cabaça

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