Folklore de Taylor Swift: uma transformação inesperada

O oitavo álbum de Taylor Swift chegou, inesperadamente, a 24 de julho. O lançamento de folklore foi anunciado apenas na véspera, tendo continuado um segredo até ao momento em que a cantora colocou uma nota do anúncio nas suas redes sociais.

Mais uma vez, Taylor Swift reinventou a indústria musical. Durante os primeiros anos da sua carreira de mais de uma década, afirmou-se como uma das maiores estrelas da música country. Taylor Swift (2006), Fearless (2008) e Speak Now (2010) foram os álbuns que a ajudaram a concretizar isso, e até teve vários singles que chegaram ao mainstream como, "Love Story" e "You Belong With Me". A partir de Red (2012), começou a pender mais para o pop, mas ainda com o selo de country. Contudo, só em 2014 veio comprovar que é uma pop star com o disco 1989. E assim, continuou com Reputation (2017), sobre a sua reputação na media, e até Lover (2019), afirmando ser "uma carta de amor para o amor".

Com folklore, mudou completamente a sua narrativa e fez um álbum indie. Claro que Taylor Swift não é uma artista indie, mas foi buscar várias inspirações a este género musical. Um passo repentino e certeiro na sua carreira. Com onze das dezasseis músicas produzidas ou co-escritas por Aaron Dessner (dos The National), também contou com Jack Antonoff, o seu fiel companheiro de estúdio desde 1989 (2014), criou o seu mundo cinematográfico com uma energia outonal. Em termos de melodias, é um dos seus trabalhos mais simples, mas no que toca às letras é o mais complexo.

Não só foi buscar inspirações ao indie, com também ao folk, rock e até country, uma memória dos seus tempos primórdios. Todas as referências são traduzidas para uma sonoridade simples com piano, guitarra, baixo, percussão, inclusive, instrumentos de sopro e uma harmónica em alguns temas. Resultando no oposto do seu penúltimo trabalho, Lover, que trouxe um pop colorido e aperfeiçoado. Ao mesmo tempo, mostra novas facetas na sua voz a cantar em tons mais baixos, e uma melhoria notável na mesma desde os seus primeiros discos. E mostra exatamente isso em "exile" com Justin Vernon de Bon Iver, onde ambos se apoiam um ao outro com os seus timbres distintos. Um dos melhores momentos deste disco, e também o mais dramático. Já em "epiphany", exibe um ritmo calmo acompanhado por uma voz controlada que traz conforto.

Porém, a parte mais forte do disco é a escrita e storytelling de Swift, que também tem vindo a melhorar ao longo dos anos. As letras foram inspiradas por pessoas que conhece ou nunca conheceu, e por personagens que criou no seu imaginário, como se cada música se tratasse de um conto. O que a levou a criar um triângulo amoroso em três temas na perspetiva de cada uma das personagens. Começa por "betty", que é contada da perspetiva de James que traiu a sua namorada e mostra-se arrependido pelo erro que cometeu (I'm only seventeen, I don't know anything/But I know I miss you). Segue-se a vez de Betty contar a sua versão do romance adolescente em "cardigan", o primeiro single, e mencionar o passado ('Cause I knew everything when I was young/I knew I'd curse you for the longest time). Por fim, cabe à rapariga com quem James traiu Betty ter a sua oportunidade de falar em "august", onde admite que era apenas um romance curto de verão (August sipped away like a bottle of wine/'Cause you were never mine). São apenas três dos dezasseis exemplos em que a cantora nos leva imediatamente a imaginar a história de cada canção em imagens, visualizando um filme. Algo que é um dos pontos fortes em todos os seus trabalhos, mas aqui vem mais reforçado.

"this is me trying" e "invisible string", a seguir a "cardigan", são as que relembram mais o seu mundo pop. Para ajudar nas suas histórias, chega "the last great american dynasty" que fala sobre Rebekah Harkness, uma padroeira das artes, que realizava festas na Holiday House, a mansão em Rhode Island comprada pela cantora. Depois, vem "mad woman", que pode ter sido inspirada em Harkness, acerca de uma mulher louca de que ninguém gosta. Ambos os temas servem como referências à própria vida da artista por ser bastante criticada na media e nas redes sociais, tal como, fez em "Blank Space" e "Look What You Made Me Do".

Criado durante a quarentena, folklore transporta-nos para uma casa no meio da floresta em isolação com o universo narrativo que Taylor Swift conseguiu concretizar. Usando as inspirações dos seus antigos trabalhos e juntando a sua melhorada escrita, é um dos seus álbuns mais surpreendentes, que mostra a sua evolução e a afirma como a grande compositora que é.

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